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A
etimologia da palavra pressupõe que o arremedilho fosse
uma representação elementar em que a declamação e a
mímica se combinavam para tornar mais atraente e persuasiva
a fábula contado pelos jograis ao auditório, composto
ora por aldeões ou por fidalgos, reunidos por ocasião
de cerimónias religiosas, festas populares.
Por essa altura, no reinado de Afonso X de Castela,
chamavam-se Remedadores aos jograis especializados na
arte de imitar. Nos séculos XIII e XIV localiza-se o
período mais intenso do arremedilho em Portugal, abundando
nos Cancioneiros dessa época - Ajuda, Vaticana e Biblioteca
Nacional - as composições poéticas com esquema de diálogo,
ou tenções chamadas deste modo pela existência
de um jogo antagónico entre dois jograis. O que as aproxima
do teatro propriamente dito, como os próprios Cancioneiros
documentam, é o facto de serem representadas, a partir
da sua tenúe acção, e esta ser arremessada por jograis
e jogralessas ou soladeiras. Nomes famosos como Pedro
Meogo, Bernardo de Bonaval, Paio Gomes Charinho, Fernado
Esguio, Lourenço ou D.Dinis que adoptaram o diálogo
com o namorado, a mãe, a amiga confidente, a natureza
e até as polémicas questões em verso como a de Guarecer
por Trovar. Todavia o ponto de ligação com o ulterior
teatro será o reaparecimento nos textos de Gil Vicente
e Francisco Manuel de Melo do tipo fidalgo arruinado,
presente já nas cantigas de Escárnio e Maldizer, e em
ambos os casos submetido à lupa satírica.
O campo de acção dos jograis vê-se reduzido com a descoberta
da imprensa e a difusão do livro, levando ao declínio
do arremedilho. Prova disso é a abolição do privilégio
de foro especial decretada por uma lei de 1446 para
os jograis, terjeitados ou truôes e goliardos. Porém
a influência deste núcleo original perpetuou-se na farsa
vicentina, mais precisamente no pranto da Maria da Parda,
no Pater Noster ou o Auto da Fadas. Em meados do século
XIII que se manifesta a conexão entre a litúrgia do
rito católico e desempenhos teatrais, apoiada pela proibição
dos actos de culto e danças e cantos profanos.
É deste período o mais antigo drama litúrigo
em Portugal proveniente do Mosteiro de Santa Cruz em
Coimbra, em que se conta o nascimento de Cristo através
de um diálogo entre pastores. Dois séculos volvidos
este começo irá culminar nos autos pastoris vicentinos
endereçados à matinas do Natal. Há ainda a destacar
na simbologia cristã, o mistério da Encarnação e o mistério
da Ressurreição, um e outro correspondentes aos mitos
do solstício de Inverno e o equinócio da Primavera.
Destacam-se Officium Patorum, Visitatio Sepulchri repetida
em ambos a pergunta Quem quaerritis?. Igualmente focado
foi o ciclo pascal que se integra nas festas solenes
do Corpus Christi, em que as autoridades eclesiáticas
e civis personificavam figuras bíblicas ou alegóricas
mediante caracterizaçãop e indumentária própria.
Também se torna comum o empréstimento de vestiduras
sagradas, ornamentos e coisas da Igreja para representações
que se fazem nas igrejas ou procissões solenes como
o de Corpo de Deus. Gil Vicente aproveitou tal tradição
como o demostra o Auto de S. Martinho representado em
1504 na igreja das Caldas da Rainha na procissão de
Corpus Christi.
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