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Esta
ligação teatro-catolicismo ficou expressa na publicação
de um livro em Florença que data de 1435 com o nome
de Laudes e Cantigas Espirituais e Orações Contemplativas
Do muito Santo e Bom Jesus , Rei Dos Céus e da Terra,
e da Muita Alta e Gloriosa Sua Madre, sempre Virgem
Santa Maria, e é seu autor André Dias bispo de Mégara
e dos Ajácio, cuja expressão literária se revelou tosca,
de ritmo negligente e rima fácil, inspirando-se nos
temas de Paixão de Cristo, influenciado pelo italiano
Jacopone de Todi.
O desespero e a dor de Maria ao ver o seu filho torturado
crucificado exprimem-se em discurdo directo, efectuando-se
a passagem da poesia lírica para a poesia dramática.
Estas laudes serão a base para os autos de matéria religiosa
dos autores dramáticos de Quinhentos, como Legenda Áurea
de Jacopo Varagino, autos hagiograficos de Afonso Álvares,
Baltasar Dias ou Fernão Mendes ou até mesmo Gil Vicente.
É provável, que embora as temáticas de André Dias tenham
sido usadas em representações posteriores, os seus contemporâneos
não conhecessem a sua obra.
Paralelamente aos arremedilhos e às representações litúrigicas,
correspondentes às faces profana e sagrada, uma outra
face teatral desenvolveu-se nos cem anos precedentes
à obra vicentina: os momos, divertimentos corteses em
que participavam fidalgos, pajens e por vezes o próprio
monarca, não excluíndo em certas festividades o povo.
Os episódios eram baseados em novelas de cavalaria,
em que as personagens agiam teatralmente de uma forma
mimada, dançada e eventualmente recitada. Este género
era aparentado com os momes franceses, as momarie venezianas
e os momos castenhanos. Foram, especialmente representados
na corte lusitana durante o século XIV, estando documentados
na crónica de D.João I de Fernão Lopes.
Os testemunhos que chegaram até nós revelam que os momos
eram manifestações de natureza dramática, que aproveitavam
os símbolos das novelas de cavalaria que serviam os
desígnios da política régia de expansão e conquista,
exaltamdo-a. Não era porventura que Gracia Resende comparava
os momos de 1490 às fábulas de Amadis e Esplandão.Uma
vez mais Gil Vicente absorveu para a sua obra a tradicão
dos momos de Quatrocentos, dos quais procurosu evidenciar
não só o espírito aventureiro e cavaleiresco como a
concepção cenoplástica nos seus autos narrativos e alegóricos,
presente em Cortes de Júpiter, Divisa da Cidade de Coimbra,
Auto das Fadas, Triunfo do Inverno.
Aliás em pleno momento épico dos Descobrimentos o espírito
de conquista do passado foi retomado. Com efeito, Luciana
Stegagno Picchio, refere que "Gil Vicente não é um fenómeno
isolado e nem sequer improvisdao, a sua cultura é fruto
de uma longa maturação, em que intervêm todos os motivos
que formaram a grande cultura europeia da Idade Média;
o seu teatro não é um ponto de partida, mas, como todas
as grandes criações, um ponto de chegada, uma soma na
acepção medieval da palavra".
Ainda em relação a testemunhos, em 1516 foi publicada
uma vasta colectânea poética, o Cancioneiro Geral, organizado
por Garcia Resende, incluíndo momos e os primeiros índicios
de literatura dramática. Nomes como Duarte de Brito,
Duarte da Gama, Pedro Homem e Álvaro Campos ou Enrique
da Mota, juíz dos orfãos em Óbidos são enunciados. Supõe-se
que tenham sido representados em palácio nos últimos
anos do século XV, ínicios do século XVI, anunciando
a sátira vicentina, as suas personagens e temáticas.
Só com Gil Vicente o teatro em Portugal adquire segurança,
mestria e pleno uso da palavra.
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