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Teatro Português                            p.<< 9 10 11 12 >>

Um parêntese

Na segunda metade do século XVI dois acontecimentos marcaram negativamente o teatro português: o Santo Ofício e a dominação espanhola, através da proibição de vários índices expurgatórios, nomeadamente os de 1554, 1581 e 1624, com especial destaque o ataque à obra de Gil Vicente e às comédias de inspiração humanista.

A acrescentar a este quadro negro havia ainda o influxo do teatro espanhol, cujas companhias e actores mais famosos vinham até Lisboa tomar conhecimento do reportório nacional, bloquendo o seu desenvolvimento. Em 1640, Portugal alcança a independência, e quatro anos depois Francisco Manuel de Melo escreve a única obra digna de interesse de todo o século XVI a farsa o Fidalgo Aprendiz. No entanto, só perto de um século mais tarde é que o teatro português se conseguiu desprender das influências estranhas. O século XVI foi um parêntese, um intervalo obscuro, de penúria em que a perda de autonomia se estendeu à própria língua, tendo sido as obras escritas em castelhano ou latim.

A entrega à Companhia de Jesus em 1555 do Colégio Real de Coimbra que passou a denominar-se Colégio das Artes, consistu um duro golpe para as representações teatrias clássicas e humanistas visto serem aí que elas se faziam. Só dois séculos depois com a expulsão da ordem pelo marquês de Pomabal é que algo mudou.

Durante esse período predominavam peças de carácter religioso, alegórico inspiradas na Bíblia ou no Santoral. Neste período destacaram-se Padre Luís da Cruz. Em relação aos autores, evidenciaram-se o espanhol Miguel Venegas, e os portugueses Saúl Simão Vieira, com Elias, António Abreu com Degolação de São João Baptista, Diogo Seco e Afonso Mendes, João da Rocha, Miguel Álvares, António Gomes, Luís Ribeiro, Manuel Rodrigues, André Fernandes, Anselmo Xuquer e Pedro Peixoto.

Relativamente às companhias de teatro espanhol denominadas por mogiogangas passaram a incluir Portugal nos seus itinerários, visto que a corte estar instalada no nosso país. Davam as suas representações nos pátios de comédias, o equivalente lusitano dos corros ou corrales castelhanos, sendo o pátio da Mouraria aquele de onde provêm a mais remota notícia.

Fernão Dias Latorre, empresário espanhol procurou construir mais pátios com o fim dos citados, tendo sido apenas construído o das Arcas que desempenhou um papel crucial no teatro português até ter ardido no século XVII. Foi reconstruido, perdurando até ao terramoto de 1755, sem contudo voltar a conhecer o esplendor das companhias espanholas de Heredia, Riquelme, Escamilla, Cosme Pérez, António Roiz, Garcez, Isabel Gamarra, com o seu reportório de comédias assinadas por Calderón, Lope de Vega, Rojas Zorrilla, Tirso de Molina, Cadamo, Guillén de Castro, Moreto e Jacinto Cordeiro.

Este último, discípulo de Lope de Vega, foi um comediógrafo português que elegeu o castelhano para se exprimir, autor de Lo que es Privar e Victoria por el Amor. A este outros portugueses se juntaram como Antónuo Henrique Gomes, João de Matos Gomes, Manuel Freire de Andrade, Tomé de Tavora Abreu, Manuel Araújo de Castro, António de Almeida, Manuel Coelho de Carvalho, José Correia de Brito, Estêvão Nunes de Barros, Caetano de Sousa Brandão, Isabel Senhorita da Silva, Sóror Maria do Céu. É o mesmo fenómeno histórico que está na base do recíproco interesse suscitado por temas portugueses na obra dos maiores autores espanhóis do siglo de oro, como Vèlez de Guevara, Molina ou Lope Vega.

Na realidade, não se compreenderia que a aproximação dos dois países funcionasse apenas num sentido. Os autores que se procuravam emancipar rapidamente caíam, levando Teófilo Braga a dizer: "representam ainda a escola nacional de Gil Vicente, mas quase inteiramente desnaturada pela influência absoluta do teatro espanhol". Havia quase que passar um século até que a cena portuguesa se emanecipasse.

 

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